“Round 6” vira motivo de preocupação entre Adventistas

A classificação indicativa é para maiores 16 anos, mas um dos sucessos recentes da Netflix, a série sul-coreana Round 6, tem repercutido entre o público infantil na internet e em brincadeiras da vida real, chamando atenção de educadores, psicólogos e grupos de pais. O drama asiático — que se tornou a série mais vista da história do streaming e já foi assistida em 111 milhões de lares — guarda semelhanças com as franquias Jogos Mortais e Jogos Vorazes, em que os personagens são submetidos a provas de sobrevivência.

Só que, em Round 6, os desafios são baseados em brincadeiras infantis como cabo de guerra, bolinhas de gude e “Batatinha frita, 1, 2, 3”. O desfecho macabro é que os participantes que não se saem bem nas provas são mortos.
A série é para adultos. Faz uma crítica à desigualdade socioeconômica em cenas que contém dilemas morais, violência, tráfico de órgãos, sexo e suicídio, entre outros temas. No entanto, com a internet e as redes sociais, crianças e adolescentes, mesmo quando não autorizados pelos pais a assistir pelo serviço de streaming, têm acesso a estes conteúdos. Febre mundial, Round 6 chega até os jovens em formato de vídeo, memes, games e filtros para Instagram e TikTok.
No Rio de Janeiro, a escola Escola Aladdin emitiu, na primeira semana de outubro, um comunicado aos pais dos alunos, alertando para o conteúdo inadequado e para a “obsessão” dos jovens pela série. Ao jornal O Globo, diretores da instituição informaram que os alunos estavam reproduzindo brincadeiras que fazem alusão ao assassinato de personagens. No Colégio Adventista Marechal Rondon, em Porto Alegre, a série não chegou a inspirar jogos no recreio, mas a vice-diretora Tatiane Goetz dos Santos relata que mesmo as crianças mais jovens comentam sobre.
Inspirada pela ação da escola carioca, a instituição gaúcha publicou, na semana passada, uma nota dirigida a pais e familiares de alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio. A circular alerta para o conteúdo inapropriado de Round 6 para crianças, a relação dela com jogos da infância e o fato de a série ou de recortes dela compartilhados em redes sociais estarem impactando os alunos.
— Mesmo sabendo que a série saiu em setembro e que muita gente já maratonou, publicamos a circular para alertar os pais a ficarem de olho no que seus filhos estão vendo. Até porque, quando um coleguinha comenta, desperta interesse e curiosidade no outro que não tinha nem ouvido falar. E ele vai, com certeza, procurar. A Netflix tem acesso infantil, que limita, mas muitos (alunos) têm acesso ao perfil adulto também. Nossa carta é uma medida preventiva e, a partir daí, a família administra essa situação da forma que achar necessário — afirma Tatiana.
Professores, monitores e membros da coordenação disciplinar da escola foram orientados a estar vigilantes quanto a brincadeiras e qualquer situação que possa ter ligação com a série e suscitar violência. “Lembrando aos alunos que toda brincadeira saudável não deve ter como objetivo: ferir, expor, entristecer ou forçar o próximo”, diz trecho da nota.
Famílias atentas
Ao acompanhar as filhas de cinco e sete anos em uma festa infantil, a moradora de Montenegro Júlia Becker, que já havia assistido a série, reconheceu na brincadeira das crianças a música cantada pela boneca no primeiro episódio de Round 6. O grupo jogava Batatinha Frita 1, 2, 3, jogo no qual um “chefe” fica de costas ou de olhos fechados. Depois, entoa o bordão “Batatinha frita, um, dois, três”, encara os demais participantes e, caso detecte algum movimento, o indivíduo que se mexeu é eliminado.
Suas filhas não haviam assistido à série, mas, quando conversou com elas, Júlia ficou sabendo que aquele jogo, embora de forma atenuada, já estava sendo replicado em canais infantis do YouTube e em plataformas de games. A mão optou por explicar que tratava-se de uma série “violenta” e que “não poderiam ver ou ficariam impressionadas e teriam pesadelos”. Também bloqueou alguns vídeos do YouTube que julgou inadequados.
Sei que, na escola, elas continuam brincando de “Batatinha frita 1,2,3” e, quando algum participante se mexe, eles fazem “pá, pá, pá” imitando os tiros. Mas como já tive conversas com elas, entendo que não adianta eu entrar em pânico. Lembro que, na minha infância, tinha brincadeiras do filme O Exorcista, que eu não vi, mas sabia o que era. Não adianta se alarmar, eu preferi conversar e limitar o possível — afirma Júlia.
Já a microempresária Jeanine Pedroso, moradora de São Leopoldo, na Região Metropolitana, conta que se dispôs a ver a série junto com a filha de 14 anos, até como uma forma de entrar no universo do k-pop e dos dramas sul-coreanos do qual a menina, fã de BTS, gosta muito. Entendeu que, dada a popularidade e a inevitabilidade de Round 6, essa seria uma chance para debaterem o que viram juntas e educar a filha para o significado por trás da série. Já a filha mais nova, de sete anos, não foi autorizada a assistir, mas houve diálogo a respeito da decisão.
— Aqui em casa, a série está proibida para a menina de sete anos, mas explicamos o porquê da proibição, que (Round 6) tem muito sangue, que lhe causaria mal-estar. Mas ela joga um game eletrônico que tem uma versão de Round 6, sem mortes, e muitas vezes questiona por que pode jogar, mas não ver na Netflix. É importante falarmos sobre a série com as crianças. Proibir sem explicar é o mesmo que empurrá-los pra frente da tela, enquanto explicar e conversar é o exercício do cuidado com elas — afirma Jeanine.
Fenômeno sintomático
O psicólogo e psicanalista da Holiste Psiquiatria Claudio Melo não acredita que séries ou jogos tenham potencial de deixar crianças mais ou menos violentas, mas admite que pode haver um impacto emocional à criança quando ela assiste um conteúdo adulto. Nestes casos, orienta que a conversa franca é a melhor estratégia a ser adotada por pais e educadores.
— Se a criança de alguma forma assistiu, pois não temos como criar todos os bloqueios e controlar tudo o que eles assistem, o tratamento deve ser o mesmo de quando ocorre algo traumático: o melhor caminho é o diálogo, falar sobre o que está acontecendo, ouvir e marcar que aquele conteúdo não é adequado para a idade dela. Se o tema for devidamente conversado, com a criança sendo acolhida, pode inclusive servir como fonte de amadurecimento para ela. Não estou recomendando que os pais botem os filhos pra assistir, mas, se acontecer, podem utilizar ao seu favor como um elemento educacional — afirma Claudio.
O especialista alerta ainda para que a série não seja transformada em um bode expiatório de problemas da sociedade. Ele afirma que o papel dos adultos, neste contexto, é o de sociabilização:
— O problema não está na série, no filme, no game e sim na falta de administração do acesso das crianças a eles. É natural na criança a agressividade, a curiosidade. O papel do adulto é o de sociabilização, de conseguir fazer barreira a isso e, quando necessário, educar a criança utilizando essas deixas.
GZH


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